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9/3/2007 16:51:36 21/07/2005 - 18:30
IRMÃ LEONORA LUTA PELA TERRA EM VIOLÊNCIA RECORDE
Integrante da Comissão Pastoral da Terra no Norte de Mato Grosso
descreve o cotidiano de militância numa das áreas mais tensas do país.
E faz da resistência uma profissão de fé: "Se eu desistir, muita gente
ficará indefesa".
Irmã Leonora Brunetto, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Alta
Floresta, Mato Grosso, conhece de perto a realidade por trás do estudo
publicado no último dia 27 de fevereiro, pela Organização dos Estados
Ibero-Americanos (OEI), que hierarquiza os municípios brasileiros
segundo seus índices de homicídios.
Nascida no Rio Grande do Sul, hoje, aos 61 anos, é ela a
responsável pelo trabalho da CPT nas cidades de Colniza, líder do
ranking, e diversas outras do Norte mato-grossense, que figura como uma
das regiões mais violentas de todo o país.
Evitando falar de seu telefone celular - que estaria grampeado por
fazendeiros da região avessos a sua militância - ela encontra
justificativa para os altos índices de homicídios na área na omissão do
Estado, especialmente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), e na concentração fundiária. E, entre ameaças e
intimidações, faz sua parte na busca pelo fim da violência no campo.
Em sua trajetória de luta, nem obstáculos como o latifundiário
Sebastião Neves de Almeida, conhecido como "Chapéu Preto", que ganhou
fama internacional devido às acusações de crimes como grilagem e uso de
mão-de-obra escrava, têm sido capazes de detê-la. Serena, ela explica
sua resistência: "A gente vai tocando, porque eles não têm mais força
do que quem está me defendendo".
Desde 2003, irmã Leonora acompanha as 350 famílias do acampamento
Renascer, cujas terras estão em nome de Neves, e que já foi palco de
diversos confrontos, levando inclusive à morte de trabalhadores rurais.
Repórter Brasil - A senhora recebe com surpresa o estudo que
aponta essa região como uma das mais violentas do país ou isso já era
conhecido de longa data?
Irmã Leonora Brunetto - A gente não tinha um levantamento, mas eu
sempre falei que achava que aqui é muito pior do que pensam, e talvez
muito pior do que o Pará, porque aqui, pelo fato de o Estado ter sido
ausente, e por não20haver movimentos junto a esse povo, foram feitas
barbaridades. E elas continuam, porque somos uma força pequena. Não é
qualquer um que tem coragem de enfrentar isso. Já há uma boa parte da
população que nos apóia, mas essa região é terrível.
Falou na ausência do Estado... Que outras variáveis poderia colocar como responsáveis pelos altos índices de violência?
O projeto local de colonização traz o pequeno agricultor para ser
usado e, assim que ele não for mais útil, o leva embora. Isso massacrou
nossos trabalhadores, que vieram, trabalharam nas madeireiras e ficaram
sem nada. Na verdade, foram usados. Foi um projeto planejado para uma
economia de poucos. Isso também é um fator de violência muito grande...
A concentração de renda e de poder?
Sim. A CPT Nacional quer dar mais força aqui. É uma região que realmente precisa desse auxílio.
Um estudo como esse, visto a distância, transmite a frieza dos
números, mas não dá a dimensão de como isso se manifesta no dia-a-dia.
Como aparece essa violência no cotidiano?
Em Marcelândia, que está próxima de Colniza, e também daqui, a
violência contra o pequeno agricultor no campo está muito grande.
Colniza aparece como campeã porque lá até existe o trabalhador que
começa a gritar, mas há uma surdina, em que ninguém percebe nada, não
se consegue levantar reivindicações.
Contou que seu telefone está grampeado. Ele está sendo rastreado pela Polícia Federal (PF) por conta das ameaças?
Estava sendo rastreado pela PF, mas agora não mais. Agora, é pelos fazendeiros.
Mas o autor das ameaças continua sendo o "Chapéu Preto" ou você tem sido alvo de outras pessoas, recentemente?
As recentes são de novos inimigos. É uma equipe, a mesma que está
ameaçando o bispo do Pará (Dom Erwin Kräutler), a mesma que matou
Dorothy (Stang). É uma associação de fazendeiros, que estão todos
unidos a esses nossos.
Quando foi a última ameaça que recebeu deles?
Em novembro. Mas, em minha casa, estão chegando pessoas à noite,
batem na porta, reviram coisas que estão lá fora. São sinais que já faz
15 dias que estão acontecendo. A gente sabe que são eles, para nos
amedrontar.
E essa tática está dando certo?
A gente vai tocando, porque eles não têm mais força do que quem está me defendendo.
Mas você não tem receio de que possa acontecer algo mais
trágico? Não tem vontade de desistir da luta para evitar algo mais
sério?
Não, porque, se eu o fizer, vai ter muita gente que não terá
ninguém para defendê-los. Mas, claro que há momentos em que a gente
fica apreensiva. Não tanto com medo, mas sabemos que todos nós queremos
a vida, não a morte. Mas, se for em favor da população, não me importa,
porque sei que a vida é passageira e uma hora ou outra a gente tem que
partir.
No fim de 2005, houve uma diligência do Incra e de uma comissão
da Secretária Especial de Direitos Humanos para ouvir as pessoas no
assentamento Renascer, em Nova Guarita. Houve algum desdobramento dessa
visita?
Por vários meses, a gente ficou tranqüilo, ninguém mais mexeu
conosco. Mas sabíamos que era um silêncio quase obrigatório, porque o
delegado da PF falou para eles - fazendeiros: "Se vocês querem o bem de
vocês, têm que cuidar da irmã, porque se acontecer alguma coisa com
ela, serão vocês os culpados". Então, eles tiveram receio e pararam por
aí. Agora, nós sabemos que o Incra tem muita culpa nisso também.
Por quê?
O órgão não toma decisões. Nós fizemos um assentamento na área do
Sebastião Neves de Almeida e até hoje o Incra não veio com o oficial de
justiça para retirar o caseiro e proibir o Sebastião de entrar na área.
Ele continua entrando, com grande perigo para o nosso povo,
ameaçando-os - e o caseiro também. Então, sabemos que o Incra tem culpa
também, por ser muito lento.
Você já vivenciou casos de violência perto de Colniza ou
considera que a tensão, em termos de agressões, pode ser até maior em
Alta Floresta?
Em termos de agressões contra os trabalhadores que buscam acesso às
terras, Colniza é pior. Agora, quanto a trabalho escravo, a região de
Alta Floresta, Nova Bandeirante e Apiacás é pior.
*Por Mauricio Monteiro Filho
Autor: ONG Repórter Brasil
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